Você diz ao recrutador que é perfeccionista? Precisamos falar sobre isso

Em meio a sua tão esperada entrevista de emprego, o recrutador pede que descreva alguma situação em que precisou usar de sua autocrítica para concluir a entrega de alguma tarefa ou produto em prazos apertados e você considerou que não estava perfeito, mas não havia mais tempo para correções e a entrega foi feita assim mesmo. Aqui começa uma conversa sobre perfeccionismo (ou não).

O perfeccionismo é uma frequente referência que os candidatos dão a si mesmo, seja descrevendo como algo que entendem ser positivo ou de necessário desenvolvimento e às vezes, é citado por pura falta de autoconhecimento. Decidi falar sobre isso justamente devido à constância que o perfeccionismo aparece no meu dia-a-dia de RH, hora escancarado e hora camuflado. Em meio as minhas reflexões acerca do assunto, convido-o ao mesmo.

Você se considera perfeccionista? Você é perfeccionista ou tem dito que é, quando nunca parou para pensar se é mesmo? Como o perfeccionismo ajuda ou atrapalha na sua carreira e vida pessoal? É possível ser e fazer tudo tão perfeito? O que é perfeccionismo?

Você já parou para pensar que perfeccionismo pode ser uma questão de opinião, de ponto de vista? Por exemplo… na minha opinião seu desempenho durante o processo seletivo foi satisfatório. Na sua opinião, deixou muito a desejar, você fez tudo ao contrário do que planejou. Quem estaria certo? Esta não é a questão.

Um dos pontos importantes aqui é o autoconhecimento. Precisamos mergulhar em nós e nos conhecer o suficiente para ter clareza e certeza que podemos nos considerar perfeccionistas, pois, às vezes, falamos por aí que somos e, na verdade, nunca pensamos a respeito com profundidade para entender o que significa ser perfeccionista e o que isso representa. E se somos mesmo, convido-o a rever seu conceito.

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Como psicóloga, analista do comportamento e recrutadora, quando alguém me diz que é perfeccionista e não considera isso positivo, na verdade, ela me diz que atender a expectativa dos que estão ao seu redor é muito frustrante e cansativo, que tem medo de se expor, de ser julgada, de ser vulnerável e acreditem, de que as coisas deem certo, pois, se derem, o nível de ação e consequente exposição será ainda maior. Logo, quando este comportamento surge como algo realmente positivo justificado pelo fato da pessoa gostar de fazer tudo certinho, ela quer dizer as mesmas coisas já citadas e ainda acrescenta ou que ela não reconhece seus medos, ou que ela reconhece mas ainda assim, há a necessidade de se mostrar inabalável, afinal, vulnerabilidade a faz sentir fracassada ou vem acompanhado de coisas ruins.

Estudos das universidades York St. John e Bath, no Reino Unido e West Virginia, nos Estados Unidos, publicados na revista Veja, apontam para uma população que não é melhor sucedida apesar de buscar a perfeição, mas que está ficando cada vez mais doente. Isso porque essa tendência está associada a uma série de condições clínicas preocupantes como: depressão e ansiedade (mesmo em crianças), automutilação, transtorno de ansiedade social e agorafobia, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), compulsão alimentar, anorexia, bulimia, estresse pós-traumático, síndrome de fadiga crônica, insônia, colecionismo, dispepsia, dores de cabeça crônicas e, em casos extremos, mortalidade precoce e suicídio. Sim… suicídio.

Somos cobrados pela perfeição, desde que somos crianças e não nos culpemos por isso. Mas a partir do momento que conseguimos agir com uma postura protagonista e consequente tomada de decisão, podemos mudar isso e nos tornarmos pessoas melhores, por nós mesmos. Isto, inclusive se refletirá em todas as nossas relações e ações de forma muita positiva.

“[…] Trabalhar duro, ser comprometido, diligente e assim por diante, são todas características desejáveis. Perfeccionismo não é adotar padrões altos. É estabelecer padrões irreais. Não é um comportamento. É a maneira como você pensa sobre si mesmo”

explicou Andrew Hill, co-autor de um dos estudos já mencionados.

Uma coisa é que sejamos exigentes, autocríticos, precisos, atentos, de alto padrão, com foco em melhoria contínua e penso que devemos ser mesmo e não estou condenando e nem julgando quem se considera perfeccionista ou pelo menos pensa que é. Mas a reflexão que te convido a fazer é pensar e rever seu conceito de perfeccionismo. Também pretendo instigá-lo pela busca do autoconhecimento e se ainda assim nada disso fizer sentido, tudo bem. Vida que segue.

Há uma linha tênue entre o perfeccionismo e algo bem feito com autocrítica. Um trabalho bem feito está atrelado a dar o seu melhor para fazer e entregar algo através da dedicação e da disciplina. O perfeccionismo, vem acompanhado de ansiedade, culpa, medo, insegurança, insatisfação, procrastinação, haja visto que as coisas nunca saem como o perfeccionista deseja. Poderia ser um disfarce, talvez inconsciente (ou não), para não fazer ou não entregar algo para então, evitar julgamentos?

Há um processo necessário e fundamental de aceitação aqui. Aceitar nossa condição humana e considerar que os caminhos possíveis são acertar ou aprender. Deste modo, estabelecemos uma relação ganha-ganha com nós mesmos.

Pode ser libertador permitir que a imperfeição aconteça, aceitá-la e celebrá-la. Porque é exaustivo manter tudo isso (a perfeição)

Katie Rasmussen, da Universidade de West Virginia, nos Estados Unidos.
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Listo aqui hábitos que funcionam para mim, pois, assim como você, eu também não gosto errar, mas após profundo processo de autoconhecimento, lido com a imperfeição com leveza. Talvez, possa funcionar para você também:

1. Faça perguntas a si mesmo em meio a sua busca pela perfeição e responda de modo racional: 

As ferramentas e o prazo que tenho para tal tarefa me permitiram fazer algo diferente do que fiz? Durante a execução da tarefa, fiz com dedicação? O tempo que estou gastando para tal tarefa é superior ao necessário? Meu nível de análise de detalhes é realmente necessário?

2. Experimente a imperfeição, de propósito: 

Após as perguntas acima respondidas, considera-se que sua entrega tenha sido feita sem perfeição, mas com toda dedicação necessária. Permita-se.

3. Experimente seguir em frente: 

Eu também me incomodo em errar, mas ao invés de remoer o passado e me crucificar por isso, analiso o erro para identificar exatamente onde eu poderia ter feito melhor. Deste modo, encaro o erro como um aprendizado e sigo em frente, pronta para os próximos e inclusive por novos erros. É aqui que considero que ou acerto ou aprendo.

4. Foque valorizar e admirar o que está feito: 

Se nós mesmos, após entregarmos algo feito com toda dedicação, não valorizarmos e admirar a nossa entrega, quem fará? Seja autocrítico, mas seja generoso contigo também. Você merece.

5. Busque por autoconhecimento. Este é o seu grande aliado: 

Para se ajudar, é preciso se conhecer. Entender suas forças e fraquezas, suas emoções, suas crenças, motivações é fundamental para nosso desenvolvimento como ser humano e amadurecimento como pessoa.

Feito não é melhor que perfeito. Mas bem feito, com certeza é.

4 Comentários

  1. Jonalt

    Excelente matéria!!!!

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  2. Ana Lúcia

    Adorei.

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